31 de maio de 2012

Cidade Cinza




A minha solidão era enorme. Maior do que eu, maior do que o mundo. Eu estava oca, com pés descalços no chão frio. Era eu e o peso do meu corpo e toda tonelada de silêncio incidindo sobre mim. Janelas de vidro fechadas tentando abafar o som da cidade que berrava ali perto.

Sem ter pra onde ir, há milhares de quilômetros de casa. Sem uma voz familiar para acariciar meus ouvidos, sem uma mão conhecida para aquecer a minha. Só o frio e a sensação gigantesca de independência, de dependência gigante de si mesmo.

É tudo um mito. Construções de discursos que se refutam. Discursos por todo lado, cada um desejando se sobressair por entre a cidade do mundo. Todos desejando atenção, um recado pregado no poste pedindo clemência ou apenas explicitando a revolta prostrada no peito e que muitas vezes não tem nenhum lugar aonde ir.

Lamentações, excitações e arte. Pessoas como lixo, lixo mais valioso do que pessoas. A cidade da contradição, a cidade de ninguém. Não é minha, nem sua. Onde todos estão, mas a ninguém pertence.
E a solidão grita, cresce e se apodera dos rostos desconhecidos, das almas inconsoláveis. Cidade da saudade de casa, de quem quer e não pode voltar. Das tribos, das iras, dos milionários e dos miseráveis. Cidade da música e da falta de canção – ritmo constante. Dias sem fim. Preto, cinza.

Apenas indisposição ou pura fragilidade. Só sei do que vi.

Ananda Sampaio***

27 de maio de 2012

Please, don't across the line.


Por favor, não atravesse aquela linha. Depois dela está o meu mundo e peço-lhe que não o invada, nem com tanques de guerra, nem com vasos de flores. Não gosto de invasores, tenho sempre a impressão que desejam surrupiar-me algo. Então, don’t across the line! Não há crime algum, apenas meu mundo existindo no absurdo dos meus pensamentos.

Fique onde está não dê um passo, não mova um dedo. Seja diplomático, aprazível. Eu quero hoje que o sol nasça quadrado e a lua assume a cor que minha alma disser. Aqui não tem formatos que caibam em mais alguém, tudo neste lugar foi tecido apenas para agarrar meu corpo. Os compartimentos são ideais para minhas dimensões.

E ninguém mais pode estar debaixo da minha própria carne, além de mim mesma. O melhor que podes fazer é me propor um tratado de paz, onde esteja acordado que jamais haverá invasão. Um tratado de paz, mas com cláusulas de letras graúdas: “nunca atravessar a linha”.

E se quiser olhar nos meus olhos, talvez consiga vislumbrar as maravilhas que fiz pra mim e as tristezas que estão enraizadas e que às vezes se alastram como erva daninha. É a única entrada que te permito adentrar. O resto é meu, somente meu.

Talvez eu te mande uma carta, do tipo que gosto, pelo correio. Feita de papel e caneta. Com rasuras, assinatura e amassado. E então, creio que poderás levar contigo um pedaço físico do meu mundo. Não garanto que você não vá assustar – existem sempre detalhes que deixaram de ser ditos. E os campos de morango foram todos guardados pra mim.


Ananda Sampaio***